Hoje vou contar uma história que aconteceu comigo no ônibus. Meu ônibus demorou muito, o transito estava péssimo, demorei umas duas horas para chegar em casa do trabalho. Uma moça pede licença e se senta ao meu lado, até aí tudo bem.
Reparei que ela olhava fixamente para o nada e com um olhar vazio, mas ela podia apenas estar pensando em algo, hoje em dia quem não tem problemas. Foi quando passamos com o ônibus em frente ao Colégio Pedro Segundo no Humaitá, ela me perguntou que colégio era aquele. Notei pelo tom de sua foz e a forma de falar, que ela não estava em seu estado normal, a voz era muito lenta, como se ela estivesse dopada.
Ela começou a contar sua história, disse que estava sob efeito de remédios fortíssimos, que teve um surto de síndrome do pânico e os médicos descobriram que ela sofria de transtorno bipolar e ela não sabia, ela estava com uma depressão muito forte.
Ela contou que era empregada doméstica, morava na casa da patroa, mas que havia se casado e foi morar com o marido porteiro de um prédio em Copacabana, o casal foi fazer uma viagem para uma praia no Nordeste a um mês atrás e aconteceu um problema na roda do avião, a moça ficou apavorada, entrou em surto e ficou muito doente. O resultado foi que esse sujeito que ela tinha "recém casado", não quis cuidar dela, abandonou ela por ela ter ficado doente ou melhor, expulsou ela de casa e ainda alegou ter sido enganado, porque ela não disse que tinha uma doença que nem ela sabia, a patroa que está dando apoio e ela voltou a morar na casa da patroa mesmo doente.
Perguntei a ela a quanto tempo ela conhecia esse homem com o qual ela foi morar e ela me respondeu que o conhecia a oito meses, eu lhe disse que era muito pouco tempo. Eu disse que pessoas de confiança, pessoas que confiam umas nas outras, são aquelas que se conhecem a bastante tempo e sabem que podem contar para qualquer tipo de problema.
Eu ainda disse mais, disse a ela que deveria se cuidar, pensar nela e em sua saúde, que um dia tudo iria passar e com o tratamento o problema iria ficar controlado e quando isso acontecesse e ela melhorasse, um outro sujeito iria aparecer, ela contaria toda essa história e esse já saberia de seus problemas, sendo assim aceitaria ela do jeito que é.
A moça sorriu e disse que ninguém tinha dito isso a ela, mas que era verdade, outro cara se quisesse aceitar já saberia de tudo, me agradeceu muito pelo conselho e foi embora.
Fiquei pensando, muita gente pensa que tem um relacionamento com alguém, mas hoje em dia as pessoas pensam muito em si mesmas. Até que ponto se pensa no outro? E se a pessoa com quem me relaciono ficar doente, será que eu irei cuidar?
É muito difícil construir um relacionamento sólido nos dias atuais, é muito difícil poder contar com as pessoas nos momentos difíceis, muito pelo contrario, parece que os momentos difíceis existem para nos mostrar quem são as pessoas, quem está ao nosso lado nos apoiando.

