Quem
nunca se torturou com uma dúvida, com a necessidade de decidir entre ir
e ficar, fazer ou não fazer, dizer ou calar? E vamos ser sinceros…
essas dúvidas são vozes do nosso medo mesmo. Dúvida é medo de escolher
errado, medo de perder alguma parte de um todo que nunca nos pertenceu,
medo de deixar ir alguma coisa da qual não temos controle…
Nós somos ensinados que ter é sinônimo
de poder, de estabilidade, de alicerce, de prosperidade, de segurança,
de conforto. E não me refiro apenas às coisas materiais. Desde a
infância somos induzidos a reter, a nos apegarmos a tudo. E assim
crescemos e nos tornamos escravos das nossas necessidades de posse e
parâmetros. E como não poderia deixar de ser, nos frustramos quando não
conseguimos o controle sobre o fluxo natural do deixar de ter, e nos
deparamos com a nossa incapacidade absoluta de controlar o
incontrolável.
Pouco somos orientados a deixar ir o que
não nos serve mais. É árduo o aprendizado de partir e ver partir o que
acreditamos que é nosso. É difícil aceitarmos o fluxo e termos a certeza
de que o presente é o tempo e o lugar certo que nos cabe agora. E por
isso sofremos. Mas sofremos muito. É um parto a fórceps para a maioria
de nós conseguirmos deixar ir embora.
E às vezes nós é que precisamos ir
embora… Ir embora de casa para vermos o mundo sem as mãos protetoras de
nossos pais, ir embora da cidade ou do pais em que nascemos e vivemos
por tantos anos para sentirmos o fluxo ininterrupto dos começos e
recomeços, é preciso ir embora de um relacionamento falido, que não nos
dá mais do que migalhas de um pão dormido no sereno de uma noite fria,
ir embora daquele trabalho sem propósito que você forçosamente consegue
levar seu corpo, mas não convoca mais a alma para seguir com você.
Precisam ir embora também as máscaras, os preconceitos, as mentiras que
contamos para nós mesmos, os apelos da sociedade para que sejamos, ou
melhor, finjamos ser…
Ir embora é importante para que você
entenda que não é tão importante assim, que a vida segue, com ou sem
você por perto. Pessoas nascem, morrem, casam, separam e resolvem os
problemas que antes você acreditava que só você poderia resolver. É
chocante e libertador saber que ninguém precisa tanto de você pra seguir
vivendo. Nem seu filho, nem sua mãe, nem seu pai, nem seu patrão, nem
seu melhor amigo, nem ninguém. Parece besteira, mas a maioria de nós tem
uma noção bem distorcida de sua importância – novidade para quem sofre
deste mal: ninguém é insubstituível ou imprescindível. Lide com essa
verdade, antes tarde do que nunca.
Precisamos aprender a olhar os fatos de
outro ângulo, sob outra perspectiva. Colocamos tantos medos e incertezas
sobre nossas escolhas e decisões que agimos como se tudo fosse eterno e
como se as perdas fossem sentenças de morte. Todos nós um dia
deixaremos partir o próprio corpo e isso é inevitável.
Esquecemos apenas que há ganhos e perdas
em tudo e que a cada 24 horas perdemos um dia de vida e ganhamos mais
um de experiência.
Deixar ir é se libertar, é abrir espaço para o novo, é prosperar no terreno da santa incerteza.
Se crescemos quando conquistamos, crescemos mais ainda quando usufruímos, sem medo da perda.
É importante trabalharmos essa humildade
libertadora de que não somos ou temos, apenas estamos. Hoje sei que
esse nosso medo de partir, de deixar ir embora, de optar, de abdicar, de
dar é parte da obsessão egoica de controlar nossas ações e sermos
sempre assertivos e infalíveis nos resultados. Ah, duras algemas… como
vocês são cruéis…
E só com o tempo e com as chances que
nos damos é que descobrimos que não há nada mais libertador e
esclarecedor do que o bom e velho tiro no escuro.
Fonte: http://espacotaozen.com.br/

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